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PEC da Jornada de 36h: Remédio ou Veneno para a Produtividade no Brasil?

Emprega360
17/01/2026 13h29
PEC da Jornada de 36h: Remédio ou Veneno para a Produtividade no Brasil?

O Brasil está imerso em um debate que, à primeira vista, parece um avanço social inquestionável: a redução da jornada de trabalho de 44 para 36 horas semanais. A proposta ecoa em um país exausto, onde a promessa de mais tempo livre soa como música. Mas antes de celebrarmos, precisamos fazer a pergunta que realmente importa: o Brasil produz o suficiente para trabalhar menos?

A resposta, baseada em dados e não em desejos, é um retumbante não.

 

A Matemática da Produtividade: Uma Conta que Não Fecha

A lógica econômica é implacável. O Produto Interno Bruto (PIB) de um país é, de forma simplificada, o resultado da multiplicação entre as horas totais trabalhadas e a produtividade média por hora. Reduzir a jornada de 44 para 36 horas significa cortar 18% das horas trabalhadas. Para que o PIB não caia, a produtividade média de cada trabalhador brasileiro precisaria aumentar em 22% da noite para o dia.

Alguém realmente acredita que um salto de produtividade dessa magnitude pode ser alcançado por decreto?

 

O Abismo da Produtividade: Onde o Brasil Realmente Está

O problema central do Brasil não é o excesso de trabalho, mas a baixa geração de valor por hora. Os números são um choque de realidade:

País

Produtividade por Hora (USD)

Irlanda

> $100

Estados Unidos

≈ $90

Portugal

≈ $38

Brasil

≈ $24

Fonte: Dados compilados da OCDE e The Conference Board.

O mais revelador é que trabalhamos, em média, o mesmo número de horas semanais que esses países. A diferença não está no esforço, mas na eficiência. Se o Brasil mantiver um crescimento otimista de 3% ao ano em produtividade, levaríamos 15 anos para alcançar o nível atual de Portugal e 45 anos para chegar perto dos Estados Unidos — isso se eles ficassem parados no tempo.

Nosso problema é estrutural, profundo e não será resolvido com uma canetada.

 

O Fator Oculto: Rotatividade e o Custo da Instabilidade

Enquanto discutimos trabalhar menos, ignoramos uma hemorragia silenciosa na nossa economia: a alta rotatividade. Cerca de um em cada três trabalhadores formais no Brasil troca de emprego anualmente, um índice alarmante, especialmente entre os mais jovens. Este ciclo constante de contratação e demissão gera:

  • Menos curva de aprendizagem: Ninguém se torna especialista em um ano.
  • Custos elevados de reposição: Recrutar, treinar e integrar novos funcionários é caro.
  • Instabilidade operacional: Equipes que mudam constantemente nunca atingem seu pico de performance.
  • Produtividade média reduzida: A soma de todos esses fatores resulta em menor eficiência geral.

Estamos querendo colher os frutos antes de plantar a árvore. Discutimos o descanso quando ainda não resolvemos como produzir melhor.

 

O Impacto nas Pequenas e Médias Empresas: A Espinha Dorsal da Economia

Para as grandes corporações, absorver o impacto da redução da jornada pode ser viável. Mas e para o varejo de bairro, a pequena indústria, o comércio tradicional? Nessas empresas, que representam a maioria dos empregos no país, a margem líquida raramente ultrapassa os 15%.

Reduzir a jornada mantendo o mesmo salário significa um aumento de 22% no custo por hora de cada funcionário. Isso não é apenas um número; é uma ameaça direta à sobrevivência desses negócios. Significa:

  • Menos reinvestimento em tecnologia e treinamento.
  • Menos fôlego para competir.
  • Menos contratações futuras.

Quando a PME perde força, o país inteiro perde dinamismo.

 

A Verdade Nua e Crua: Por Que o Brasil é Pobre?

O Brasil não é pobre porque trabalha demais. O Brasil é pobre porque enfrenta uma combinação de desafios estruturais:

  • Baixa complexidade econômica: Exportamos commodities, importamos tecnologia.
  • Burocracia excessiva: O "custo Brasil" sufoca a inovação.
  • Educação técnica insuficiente: Faltam profissionais qualificados para as demandas do século XXI.
  • Gestão empresarial frágil: Muitas empresas ainda operam com modelos de gestão ultrapassados.

Reduzir a jornada de trabalho antes de atacar esses problemas é como tratar a febre sem combater a infecção. É inverter a ordem lógica da prosperidade.

 

A Pergunta Final: Trabalhar Menos ou Viver Melhor?

A questão que devemos nos fazer não é se queremos trabalhar menos, mas se queremos viver melhor. E viver melhor, em uma sociedade capitalista, exige gerar mais valor, não menos. A prosperidade não nasce de uma PEC; ela é construída sobre os pilares da:

  • Educação técnica de ponta
  • Digitalização massiva e acessível
  • Eficiência em processos públicos e privados
  • Cultura de gestão e desempenho

O debate sobre a jornada de trabalho é importante, mas ele precisa ser maduro, honesto e baseado em dados. Precisamos parar de procurar atalhos e começar a construir a estrada. A discussão não é ideológica; é sobre o futuro que queremos para o Brasil.

 

Por: Eduardo Killes - Cofundador Emprega360°