O Brasil está imerso em um debate que, à primeira vista, parece um avanço social inquestionável: a redução da jornada de trabalho de 44 para 36 horas semanais. A proposta ecoa em um país exausto, onde a promessa de mais tempo livre soa como música. Mas antes de celebrarmos, precisamos fazer a pergunta que realmente importa: o Brasil produz o suficiente para trabalhar menos?
A resposta, baseada em dados e não em desejos, é um retumbante não.
A Matemática da Produtividade: Uma Conta que Não Fecha
A lógica econômica é implacável. O Produto Interno Bruto (PIB) de um país é, de forma simplificada, o resultado da multiplicação entre as horas totais trabalhadas e a produtividade média por hora. Reduzir a jornada de 44 para 36 horas significa cortar 18% das horas trabalhadas. Para que o PIB não caia, a produtividade média de cada trabalhador brasileiro precisaria aumentar em 22% da noite para o dia.
Alguém realmente acredita que um salto de produtividade dessa magnitude pode ser alcançado por decreto?
O Abismo da Produtividade: Onde o Brasil Realmente Está
O problema central do Brasil não é o excesso de trabalho, mas a baixa geração de valor por hora. Os números são um choque de realidade:
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País |
Produtividade por Hora (USD) |
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Irlanda |
> $100 |
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Estados Unidos |
≈ $90 |
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Portugal |
≈ $38 |
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Brasil |
≈ $24 |
Fonte: Dados compilados da OCDE e The Conference Board.
O mais revelador é que trabalhamos, em média, o mesmo número de horas semanais que esses países. A diferença não está no esforço, mas na eficiência. Se o Brasil mantiver um crescimento otimista de 3% ao ano em produtividade, levaríamos 15 anos para alcançar o nível atual de Portugal e 45 anos para chegar perto dos Estados Unidos — isso se eles ficassem parados no tempo.
Nosso problema é estrutural, profundo e não será resolvido com uma canetada.
O Fator Oculto: Rotatividade e o Custo da Instabilidade
Enquanto discutimos trabalhar menos, ignoramos uma hemorragia silenciosa na nossa economia: a alta rotatividade. Cerca de um em cada três trabalhadores formais no Brasil troca de emprego anualmente, um índice alarmante, especialmente entre os mais jovens. Este ciclo constante de contratação e demissão gera:
- Menos curva de aprendizagem: Ninguém se torna especialista em um ano.
- Custos elevados de reposição: Recrutar, treinar e integrar novos funcionários é caro.
- Instabilidade operacional: Equipes que mudam constantemente nunca atingem seu pico de performance.
- Produtividade média reduzida: A soma de todos esses fatores resulta em menor eficiência geral.
Estamos querendo colher os frutos antes de plantar a árvore. Discutimos o descanso quando ainda não resolvemos como produzir melhor.
O Impacto nas Pequenas e Médias Empresas: A Espinha Dorsal da Economia
Para as grandes corporações, absorver o impacto da redução da jornada pode ser viável. Mas e para o varejo de bairro, a pequena indústria, o comércio tradicional? Nessas empresas, que representam a maioria dos empregos no país, a margem líquida raramente ultrapassa os 15%.
Reduzir a jornada mantendo o mesmo salário significa um aumento de 22% no custo por hora de cada funcionário. Isso não é apenas um número; é uma ameaça direta à sobrevivência desses negócios. Significa:
- Menos reinvestimento em tecnologia e treinamento.
- Menos fôlego para competir.
- Menos contratações futuras.
Quando a PME perde força, o país inteiro perde dinamismo.
A Verdade Nua e Crua: Por Que o Brasil é Pobre?
O Brasil não é pobre porque trabalha demais. O Brasil é pobre porque enfrenta uma combinação de desafios estruturais:
- Baixa complexidade econômica: Exportamos commodities, importamos tecnologia.
- Burocracia excessiva: O "custo Brasil" sufoca a inovação.
- Educação técnica insuficiente: Faltam profissionais qualificados para as demandas do século XXI.
- Gestão empresarial frágil: Muitas empresas ainda operam com modelos de gestão ultrapassados.
Reduzir a jornada de trabalho antes de atacar esses problemas é como tratar a febre sem combater a infecção. É inverter a ordem lógica da prosperidade.
A Pergunta Final: Trabalhar Menos ou Viver Melhor?
A questão que devemos nos fazer não é se queremos trabalhar menos, mas se queremos viver melhor. E viver melhor, em uma sociedade capitalista, exige gerar mais valor, não menos. A prosperidade não nasce de uma PEC; ela é construída sobre os pilares da:
- Educação técnica de ponta
- Digitalização massiva e acessível
- Eficiência em processos públicos e privados
- Cultura de gestão e desempenho
O debate sobre a jornada de trabalho é importante, mas ele precisa ser maduro, honesto e baseado em dados. Precisamos parar de procurar atalhos e começar a construir a estrada. A discussão não é ideológica; é sobre o futuro que queremos para o Brasil.
Por: Eduardo Killes - Cofundador Emprega360°